Museu da silva

Apresento aqui para vocês e deixo público para a apreciação uma transcrição feita pela parenta Barbara Xavier do parente Laurival Miranda, morador da comunidade tapajowara Cucurunã. Tem sido muito difícil parar pra fazer um projeto totalmente independente, ainda mais em tempos de pandemia e acirrada crise econômica em que estamos vivendo, mas aos poucos e de acordo com o meu tempo, vou colocando aqui nesse espaço virtual os relatos , a história da comunidade e também as minhas criações artísticas que são afetadas por essas narrativas cucurãnenses. 

Por que “Museu da Silva”?

Silva talvez seja o nome mais popular do Brasil, Silva faz parte do meu Nome, é um dos meus sobrenomes de colonizador. É um sobrenome que eu nem gostava muito de falar - quando mais jovem - pois é um sobrenome popular, do povão - me diziam que não era um sobrenome "nobre". Silva foi dado a muitos indígenas e negros, para dizer que pertenciam à família Silva. Silva, aquele que vem da Selva. Juntei “Museu” e “Da Silva” pra provocar e não pra trazer orgulho, todavia reflexões.

Muito se tem questionado sobre o papel do Museu na criação do imaginário sobre as histórias das populações originárias, e é sempre o “outro” que narra a nossa história. Então o Museu da Silva surge para questionar a construção dos museus brasileiros e coloca o sujeito como produtor da sua própria representação. Eu, Moara, sou sujeita indígena que nasci na Mairi Tupinambá, banhada pelo Rio Guamá, invadida anualmente pelo desenvolvimento vertical do concreto, que hoje conhecemos como Belém do Pará .

Eu, Moara (que em tupi-guarani significa aquele que dá a luz), carrego em mim uma ancestralidade de uma nação tapajowara que não é só de tempo passado, mas de um tempo só que se reconecta com o meu presente. E toda vez que busquei saber sobre os povos do Tapajós ou em museus, estes são localizados num passado e lá permaneceram. Parece que simplesmente o não-indígena fez uma linha do tempo e jogou a gente pra bem longe. E todos os povos que hoje vivem nesse território são colocados como “pardos”, como fantasmas de sua própria origem indígena. Estes, que continuam produzindo cultura herdada de seus ancestrais, são invisibilizados e transformados em caboclos, mas nunca indígenas.

Eu mesma não tenho respostas e nem quero impor nada aos que se declaram “pardos”. Meu objetivo é construir um novo significado a partir desse meu papel de curadora-sujeita-indígena-artista sobre as memórias e histórias tapajowaras, para reverter estereótipos, como também trazer uma imagem positiva do sujeito tapajowara o qual teve sua história marcada pela catequização, pela negação do sujeito indígena, pela escravidão do sujeito indígena, pelos conflitos da colonização que resultaram em diásporas na própria região a qual confundiu toda a nossa história étnica.

Em Cucurunã percebo perante as falas dos nativos sobre a questão da catequização, que mesmo não sendo logo compreendida, foi aceita pois entendiam como uma forma de alcançarem um sujeito “civilizado” que começava a partir de então a se alfabetizar e buscar a sua moralidade com a Igreja dos Franciscanos. Porém, mesmo com essa forte catequização, percebe-se um sincretismo religioso como até mesmo uma estratégia para manterem suas tradições, visto que mesmo com a presença de uma Igreja não se deixou de lado as curas feitas por curandeiras a partir das medicinas da floresta. Até hoje alguns moradores conhecem muito bem plantas nativas que curam.

Esse Museu é um projeto que partiu de mim mas se tornou coletivo e é narrado pelos filhos de Cucurunã, que passam a ser os sujeitos da sua própria história. Os filhos do “cucu” de “tucumã”, que se formaram a partir de um grande puxirum e de uma piracaia em Igarapé Açú (Antigo nome daquele território que se estendia de Cucurunã até Alter-do-chão).

Curadora/Artista: Moara Brasil

Transcrição: Barbara Xavier

Narrador: Laurival Miranda