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Transcrição de áudio feita por Moara Tupinambá extraída da entrevista de Moara com Dornélio da Silva.

Projeto Museu da Silva Captação: junho/2019

 

Dornélio da Silva: Ex - cientista político e formado em letras, 64 anos. Natural de Cucurunã/PA. 

 

Meu nome é Dornelio da Silva, eu tenho 64 anos , completei dia 28 de fevereiro. Nasci dia 28 de fevereiro de 1958 em Santarém, especificamente na comunidade de Cucurunã. A primeira comunidade que dá acesso a estrada de Alter do Chão, bem próximo de fato a Santarém a área urbana. Os meus estudos começaram com coisas poucas lá mesmo na comunidade, pequenino lá, comecei minha alfabetização. Mas especificamente em termos de colégio, estudo já foi em Santarém. Estudei no Colégio São Francisco, era uma escola mantida pela ordem Franciscana e estudei toda a alfabetização lá. E depois fui para o Seminário São Pio X, lá no seminário eu pretendia ser padre. Eu entrei no seminário com 12 anos. Então fiquei internado lá quatro anos, depois do seminário eu ainda continuava com a tendência de ser padre, aí já não era mais internato, a gente morava ali numa casa que chamava-se Tiagão em homenagem ao Bispo de Santarém Dom Tiago Ryan, ficava atrás da igreja, da catedral, e lá moravam as pessoas que queriam ser Padres e aí nós estudávamos no colégio Dom Armando. Era um colégio dos irmãos de Santa Cruz. Era um colégio aberto para toda a comunidade de Santarém, era um colégio pago e era chamado de científico, que eram trÊs anos de estudo. Depois de estudar lá viemos para Belém fazer Teologia. Nós fomos a primeira turma, nós fomos o cobaia da CNBB norte 2, o primeiro curso implatado por eles, na época estava no auge de Teologia da Libertação. Antes os estudantes de Santarém iam pra Recife ou ficavam por Belém e a Universidade Federal tinha um curso de teologia. Ai depois que a CNBB assumiu o curso então eliminaram o curso da UFPA e foi criado o curso de teologia para a formação dos padres e outros agentes comunitários aqui em Belém., funcionava aqui na cidade velha onde naquela época era acerbispado entao tinha um espaço grrande lá onde funcioava esse curso, era um curso interdisciplinar, que abrangia teologia, filosofia, economia e sociollogia. Era um curso bom, fiz quatro anos apenas foi quando sai e decidi não ser mais padre. E depois que decidi isso fui começar a trabalhar na Pastoral da Terra do PT, foi na época que também me casei e eu tinha 24 anos, com a Socorro Brasil que foi a minha esposa, tinha uns 18 anos e que aí nasceu a primeira filha que é a Moara Brasil. Então quando ela estava com uns 5 meses de nascida aí eu voltei para Santarém, todos nós fomos para Santarém retomar a vida lá. E lá fui trabalhar na radio rural, na catequese rural e tambem no jornal semanal que tinha lá, o jornal Estado do Tapajós e tambem eui fui assessor de imprensa,trabalhava muito, já tinhamos uma filha pequenina mas depois nasceram mais dois, o pedro e nelinho. Etntão depois de lá já voltamos para belem com um bocado de frio pra criar, uma outra fase.

Como era a casa que a gente morava quando criança? A casa na época não existia esse negócio de aluguel não. Nós tinhamos um terreno, como até hoje temos um terreno grande lá de 9 hectares. Continua lá no Cucurunã, é um pouco afastado da vila. A casa lá era feita pelo próprio papai e mais todos os meus tios que faziam casa na época chamada de puxirum, se juntavam as famílias para fazer a casa do vizinho, de alguém que pudesse ter essa ajuda. Então era assim, não existia como hoje para fazer uma coisa tem que pagar para alguém fazer, o carpinteiro, o pedreiro, etc, não. Era casa coberta de palha, tirava do meio da mata lá. A madeira toda era tirada de lá, era de barro né...fazia as paredes de barro, ou então fazia as paredes de palha mesmo, tecia as palhas e fazia as paredes ou então de madeira, de tábua..então era assim, a casa era da nossa própria família e era feita em puxirum (mutirão).

A nossa alimentação , característica dela era de caça e peixe, muito peixe. Ali o Cucurunã era próximo do rio então o titio ela ia , ele tinha canoa, ele pescava todo dia. Todo dia ela ia pescar, eu me lembro quando pequenino que ela ia pescar e quando voltava umas 5 horas da tarde com umas cambada de jaraqui, tucunaré, os peixes bem sadios, pescados com linha, anzol, não era bomba nem tarrafa, as vezes tinha, mas como era so para consumo interno, da familia, nao era pra venda. A nossa base alimentar foi o peixe, e peixe fresco bem sadio, dificilmente se comia peixe salgado para comer no outro dia, ou então colocar na geladeira mas não tinha geladeira na nossa casa. Então o meu tio tinha que pescar todo dia para ter alimentação. E a outra questão é a questão da caça né que tinham tambem os nosso amigos próximos, vizinhos, que iam caçar, matavam principalmente tatu, cotia e paca. De vez em quando matava um viado, mas a base era o Tatu e a Paca. Ai matava um e repartia, ai 4 para um vizinho, 4 pra outro e assim a gente ia vivendo. E bastante fruta né, como nosso terreno, ainda hoje nós temos muitas frutas principalmente manga, laranja, tangerina, abacaxi e açaí. Tinha muito açaí, pegava o açaí para fazer o vinho que a gente chamava né. Então nossa base de alimentação era essa, e também a outra questão quando criança a mamãe fazia muito o mingau, mingau da mandioca, tirava a mandioca, tinha tipo um povilho que saia que ela fazia, mingau de tapioca, mingau de farinha mesmo. Fazia a farinha lá, temperava, ficava gostoso. A base era essa, a mandioca pra fazer a farinha , a macaxeira pra fazer os bijous etc e tal, peixe e caça.

 

Me lembrei agora do famoso tarubá. Tarubá é uma bebida típica indígena que não tem no resto do Pará a não ser lá em Santarém, especificamente lá no Cucurunã - na comunidade onde a gente nasceu, é uma bebida bem característica da época junina. 

O que é interessante é a produção do tarubá que a mamãe fazia, ela que cuidava disso. Eu me lembro que eu participava com ela. Como era feito? Primeiro evidentemente tinha que ir na roça tirar a mandioca e trazer no paneiro pra poder descascar, e depois fazer todo aquele processo de prensa, no tipiti, tirar o tucupi, ficar aquela massa. E aí quando ficava só a massa da mandioca, ela ia trabalhar pra poder fazer os beijus grandes, assar no forno de farinha. Ela fazia esses beijus bem grandões. Depois de feito tinha uma técnica interessante que ela pegava novamente o peneiro e a gente ia lá pro igarapé. Ela enchia os peneiros com beijus e iamos pro igarapé. A gente ia molhar aquela massa, aquele beiju. Não podia molhar muito e nem pouco para não secar, tinha que ter uma certa medida e isso era tudo no olhômetro, na percepção, no sentimento mesmo. Ela tava no igarapé, molhava, ía mexendo, mexendo, molhando, até dizer “tá bom, não pode molhar mais”. Aí a gente trazia pra casa o paneiro, a massa, aí tinha que preparar a cama. O que era a cama? Era umas plalhas de sororoca, palhas de bananeira que formavam uma cama. Aí ela espalhava aquela massa uniformemente sobre a cama, ela fazia tipo assim um tempero, batia no pilão umas folhas secas com um pouco de milho, batia bem bem bem, ficava bem fininho, ficava tipo uma farofinha que espalhava sobre a cama, depois de espalhar colocava outra cama por cima e colocava umas madeiras para pesar um pouco. Deixava por lá uns três dias na cama. No terceiro dia a gente começava a cheirar, a gente era moleque, aquele cheiro gostoso. E a gente metia o dedo, e começava a comer e já estava docinho já, era quando tava bacana. Ficava tipo um bolor, mas era característico porque esse pó que dá um incremento essa massa. A gente falava “mamãe tá bom, tá gostoso. Ela ia tirar, fazia uns rolos com um quilo. Colocava num saco plástico, existia na época. Aquilo a gente ía vender aos sábados nas feiras, a gente vendia bastante. O papai trazia pra vender na feira. E como é que faz isso? O suco, o vinho. Essa massa, não tinha liquidificador na época, pegava uma chocolateira, pegava água, massa , açúcar, batia batia até ficar no jeito. E tem um detalhe, quanto mais tempo ficar apurado na cama, mais ele vai fermentando, se tomar bastante você fica porre. A mandioca é fermentada, se a gente tomava muito ficava porre com esse tarubá. Era a bebida típica da época junina, é uma característica que não é todo o Pará, e sim lá por aquela região”

A religiosidade da nossa família é católica, me lembro pequenino devia ter uns 10 ou 8 anos, o papai morreu eu tinha 10 anos. Nessa faixa de idade me lembro bem perfeitamente, o papai era católico, era dirigente da igreja lá na comunidade de Cucurunã, ele era o catequista, aquela pessoa que é o lider religioso daquela comunidade então todo mundo chamava pra ele de Tio Pedro. O nome dele era Pedro Delgado da Silva. Então qualquer pessoa que vinha ia se aconselhar ao papai, tornava um grande lider religioso, ia se aconselhar ao papai. Me lembro vagamente mesmo nas questões políticas, quando chega a época das eleições as pessoas iam lá com o papai “Tio Pedro, quem é nosso candidato?” “Quem é que nós vamos votar?”. Aí o papai informava e dizia o porquê. Papai era uma pessoa que não tinha tanta instrução, mas ele participava de muitos cursos em Santarém dentro da Igreja, muitos cursos que a igreja oferecia aí ele sempre estava participando, viajando por onde a igreja mandasse porque ele era catequista e ele comandava a igreja de nossa senhora das graças, que era o nome da santa do cucurunã que até hoje ainda tem.

 

Se eu sofria muito preconceito? Naquela época não existia esse negocio de preconceito como hoje as pessoas falam, a gente gozava muito um do outros, as crianças, gozavam muito de mim porque me chamavam de menino triste, porque eu vivia calado, ficava centrado, estudando muito e não brincava com as pessoas, não podia tirar nota vervemlha, nunca tirei nota vermelha, porque me dediquei muito.

 

As condições financeiras da familia nao eram das melhores como todos do interior que vivem da caça e a pesca. Como é que a gente tinha os produtos da cidade? Como a terra não dava por exemplo o açucar, o sal, uma carne, estes todos produtos que a gente não tinha lá. Como nós tinhamos roça, nós tinhamos verduras, melancia, , jerimum, tudo isso nós tinhamos ai o que o papai fazia? O papai não era assim uma pessoa de muita saúde porque logo cedo ele lá no roçado fazendo, derrubando a mata pra fazer a roça caiu uma madeira sobre as costas dele, desde lá ele ficou uma pessoa muito ruim de saúde. Ele passou por vários tratamentos, foi pra Manaus,foi pra Belém, e não conseguiu se restabelecer, ser uma pessoa de novo pra trabalhar na roça  e tal..o que ela fazia? Eu me lembro porque eu participava com ele, a gente  juntava as frutas. Juntava o cupuaçú, todo dia lá três, quatro, ia acumulando o mary, um tipo de fruta, manga o tucupi, a tapioca, as verduras, juntava tudo aquilo ai tinha dois dias da semana ia um caminhão que na epoca a estrada era muito ruim, passava cedinho de madrugada que trazia todo os agriculturores  pra vender na feira os produtos. E eu ia com o papai, era a unica forma que ele tinha de ter uma grana na mão. A gente ia na feira, vendia os produtos, iamos la no mercado depois e comprava oleo, feijao, sal, etc. 11h ou 11h meia  a gente voltava pra casa.

Em relação a como eu me declaro, nos meus documentos todos está como pardo. Agora é uma característica muito esquisita o termo pardo né? Porque na verdade nós somos ali uma mistura muito forte de indígenas, ali na nossa região de Santarém, os Tapajós, os tupinambás...tem várias tribos ali. Então nós somos originais de lá, entendeu? A gente é assim um pouco de mestiço né. O branco prevalece um pouco por causa da mamãe. A mamãe era muito branca o papai era moreno. Então uma mistura muito forte. E me dizem pardo né, meus documentos todos dizem pardo, mas na verdade a gente é muito mestiço mesmo. A origem étnica de meus pais na verdade eu não sei assim em detalhes. Na conversa que tive ainda com a mamãe ainda viva a gente é muito originária ali daquela região, a familia dela morava muito em Ituqui, um cidade próxima de Santarém e também mais próxima de Manaus. E o papai é muito lá mesmo, em Santarém, na região nossa do interior de Santarém. Então a gente é muito forte a questão indígena ali.

Se eu tenho vergonha das minhas origens? Não. Ao contrário, eu tenho orgulho das minhas origens. Orgulho porque é algo tão forte na gente, forte assim da onde nós viemos, da onde nós nascemos, da onde nós conseguimos ser o que somos. Então essas origens nossa elas que nos perfazem, elas que fazem a nossa cultura, a nossa etnia ser vista como algo belo, algo bonito então eu tenho muito orgulho das minhas origens.