Mirasáwa*

Em “Nascimento de Vênus”, ela faz uma releitura da célebre pintura de Sandro Botticelli, de 1486, mas, dessa vez, a figura mítica do amor e da fertilidade é representada pela mulher indígena. A foto usada é outra apropriação: é de autoria da fotógrafa suíça, naturalizada brasileira, Cláudia Andujar. A mãe primordial, por excelência, do povo brasileiro, que gestou e gerou os primeiros filhos do difícil encontro entre os invasores portugueses e os povos ameríndios.

Nas imagens 35 e 36, as colagens de Moara Brasil coroam figuras emblemáticas das causas indígenas contemporâneas com o ar das deusas míticas. Essas personalidades são consideradas, pela artista, “transformadoras políticas”, que assumem novos papéis, que, antes, eram destinados somente aos homens. Em um diálogo, que tivemos por email, ela explica: “É a forma delas se colocarem enquanto feministas, mas num feminismo comunitário diferente do feminismo eurocêntrico”. Tuíra, a mulher Kayapó, que ficou mundialmente conhecida, no fim da década de 1980, por colocar um facão no pescoço do dirigente da Eletronorte, em defesa de seu povo, em uma audiência, ganha uma espécie de totem formado por flores e folhas. Lembrada ainda jovem e por ter sido ousada, Tuíra mantém seu heroísmo na história sob a atualização de outra imagem: trata-se da anciã Tuíra, que segura o facão acima de sua cabeça, fitando, à frente, o horizonte. Na imagem 36, ela retrata uma das figuras públicas indígenas mais conhecidas na segunda década do século XXI, Sônia Guajajara, militante e ativista indígena, que foi candidata à vice-presidência, em 2018. Sônia tem grande visibilidade nas redes sociais, como também aparece em entrevistas, audiências e eventos no noticiário televisivo. Nessa figura, a imagem da combativa política ganha uma película de cores, que, associada a outros adereços da composição, é imortalizada como uma figura mítica.

Em "Kadiweu" e "Nascimento de Vênus", Moara Brasil faz uma clara referência aos campos da Antropologia da Arte e da História da Arte, numa operação de ressignificação de cânones. A foto da mulher do povo Kadiwéu, que ganhou publicidade com um importante estudo de Lèvi-Strauss sobre as pinturas faciais deste povo, é trazida para uma nova condição. Em vez de uma indígena sem nome, objeto de estudo de um eminente antropólogo francês, uma mulher mítica. Talvez uma deusa, uma ancestral simbólica, representante da resistência feminina diante das imagens cunhadas sobre seus corpos por uma elite intelectual estrangeira. A imagem da artista se sobrepõe à imagem forjada pela tradição da Antropologia, baseada nos binômios mulher-corpo e homem-mente, objeto e sujeito, passiva e ativo, personagem e autor. Nesta série, Moara traz as mulheres indígenas sobre um fundo de estrelas, sugerindo o espaço sideral. Luas, planetas e outros astros podem aparecer no fundo, criando uma atmosfera de transcendência. Flores funcionam como delicados e sensuais paramentos, armaduras, ou capacetes característicos de uma cultura não terrena, mas talvez de outros mundos.

*Mirasawá, povo em nheengatu.

 

Fragmento da tese “Arte Indígena na escola não indígena: a retomada da cultura”

autoria de Tales Bedeschi Faria.