Mirasáwa

A filosofia, a espiritualidade, a cosmologia e o modo de viver e pensar dos indígenas são assuntos recorrentes no currículo artístico da paraense. Neste sentido, a artista vem produzindo desde o final de 2016 sua série O “Sagrado Feminino” que se transformou eu "Mirasáwa", que significa povo em nheengatu. Trata-se de uma produção de colagens com técnica mista, o que poderia ser aproximado à estética pop arte, mas nesse caso, com uma pitada amazônica. Ela tem buscado a sabedoria da pajelança  feminina da Amazônia, especialmente no Marajó, onde podem-se encontrar curandeiras, benzedeiras e parteiras atuantes. É sabido que entre as comunidades tradicionalmente indígenas,  a pajelança é exercida geralmente por homens, porém no Acre encontram-se as primeiras pajés indígenas da etnia Yawanawá, personagens que também inspiraram a artista a desenvolver esta série de colagens.

O termo “sagrado feminino” tem origem nas civilizações tribais, que buscam no instinto, observação da natureza e intuição, conexões profundas com o verdadeiro “eu”. Algumas tradições indígenas prezam pela preservação de tais conexões e levantam algumas reflexões importantes: Qual a nossa origem? Qual a origem do universo? Tais reflexões guardam íntima relação com o universo feminino, uma vez que da mulher emana o poder de criar e conceber a vida. Portanto, por muito tempo a mulher foi idealizada e reverenciada como deusa. Dotada destas mesmas capacidades, a natureza como criadora, geradora de vida, e portanto, mãe, equipara-se ao universo feminino, que, como a natureza, eleva-se àquilo que é virtuoso, respeitável, em outras palavras, ao “Sagrado Feminino”. Estas concepções são fundamentais ao Xamanismo e se fazem presentes por meio de rituais e doutrinas de culto a tal imaginário. Ao contrário do que se possa pensar, tais capacidades femininas não se restringem apenas ao “ser mulher”, mas também ao “ser homem” uma vez que este também carrega dentro de si tais potenciais naturais.

 

Em um contexto em que civilizações modernizadas estão crescentemente mais vazias e líquidas, seja nos relacionamentos humanos ou no galopar das informações, emerge um mundo de “selfies” digitais, verdadeiras representações de um “eu”- fiel a sua contemporaneidade – também vazio, líquido e portanto sem alma. Em meio a tamanhas contradições entre as tradições xamanistas e tais realidades contemporâneas, Moara apresenta sua série para que questionemos nossas verdadeiras verdades. Instigando tais reflexões, a artista faz um convite para que tais contradições sejam trazidas à tona, depositando na alma feminina uma poderosa arma para adentrarmos neste universo de um “Eu” real e não fictício.