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Meu nome, Moara Brasil, não é um nome artístico, eu não inventei esse nome. Está na minha certidão de nascimento e na minha carteira de identidade. Meu nome inteiro é Moara Brasil Xavier da Silva. Carrego o nome “Moara”, que em tupi guarani significa “aquele que dá à luz” ou “aquele que ajuda a nascer”. Trago um nome indígena associado a sobrenomes dos não-indígenas, e isso diz muito sobre o que eu sou. Carrego aquilo que me liga a língua do meu povo (Moara), o peso de nomes que apagaram e confundiram a história do mesmo (Silva) e o que resulta de todos esses antagonismos (Brasil). Uns falam que sou mestiça, outros parda, outros cabocla. E quando convém me chamam de indiazinha, Tainá, Pocahontas, Moana, dentre outros apelidos…

Já ouvi de tudo: que “deveria afinar o meu nariz porque era de índio” ; “que sorte que eu não puxei o meu pai por ter um nariz muito largo” ; Que eu “tive sorte de ser mestiça porque se fosse indígena pura não seria tão bonita”; Já me questionaram se eu era índia mesmo, já que “índio não é peludo”; já me falaram para retirar o meu brinco de pena, “pois não precisava reforçar dentro de um escritório a minha ‘cara de índia’.

De acordo com Câmara Cascudo, a palavra “cabloco/cabocla” vem da etimologia tupi, kaa’boc (que vem da floresta) ou kari’boca (filho do homem branco), palavra tão disseminada na região norte do Brasil, já fez parte do censo brasileiro, mas que também tem tom pejorativo quando dito pelo outro (branquitude).

Acontece que é sempre o outro que quer dizer quem eu sou. Dizer que sou cabocla ou parda — cor branca suja — segundo o dicionário. É entrar em acordo com o discurso de que todos os indígenas morreram em 1500 e que não fiz parte de um processo violento de miscigenação. É afirmar que se ainda existem indígenas no Brasil, eles só vivem em aldeias ou isolados e são capazes de se identificar enquanto indígenas. É ignorar que o pardo é filho do colonizador com a índia que foi pega no laço, é aceitar os casamentos mistos e forçados feitos a partir do Diretório dos Índios imposto em 1757 por Marquês de Pombal. Foi a partir deste diretório que muitos povos foram obrigados a aprender o português, sendo que a língua guarani ficou proibida de ser falada.

O objetivo principal desse Diretório era de integrar ou “civilizar” os “índios” à sociedade portuguesa, buscando não apenas o fim das discriminações sobre estes, mas a extinção das diferenças entre “índios” e brancos. Dessa forma, projetava-se um futuro no qual não seria possível distinguir uns dos outros, seja em termos físicos, por meio da miscigenação biológica, seja em termos comportamentais, por intermédio de uma série de dispositivos de homogeneização cultural. Inclusive muitas das aldeias daquele período foram transformadas obrigatoriamente em vilas com o objetivo de se tornarem cidades aos moldes do pensamento colonial.

Além de meus ascendentes terem sido catequizados e expulsos de suas aldeias, eles perderam também a conexão com o seu território onde praticavam a sua religiosidade. Sua cosmologia era considerada abominável e pagã pela religião católica — desde a chegada dos invasores, inclusive muitos dos objetos sagrados foram queimados pelos próprios padres. Em outro momento eu explico melhor sobre isso. Foram também proibidos de ser o que eram, o que se acentuou na república Pombalina. É a partir deste momento que o Estado consegue atingir o seu objetivo da mestiçagem, da identidade parda, cabocla, ribeirinha, desligando a identidade indígena de seus direitos ao território, ao seus corpos e aos seus espíritos. É assim que na história, muitos indígenas viraram pobres, foram trabalhar em condições precárias nas cidades, muitos também viraram soldados da borracha e tiveram a sua identidade indígena fragilizada.

É neste sentido que sou resultado de um projeto de colonização que quase deu certo, já que re-existo enquanto consciência indígena. Não estou na cidade por acaso. Me perguntam sobre minha ascendência indígena. Bastaria dizer que sou uma indígena? Ou preciso dizer que sou uma indígena urbana? Eu ainda não sei a que etnia específica eu pertenço, mas isso me torna menos indígena? Sei que a minha família é nativa da região do baixo Tapajós/ Amazonas — metade veio das comunidades de Cucurunã e Boim e a outra metade de Santarém — de onde existiram e existem muitos povos (mesmo que de forma invisível). A migração desses povos era algo constante, buscavam melhores terras pro roçado e também fugiam e guerreavam contra os colonizadores. Na região onde meus avós nasceram também existem quilombos onde negros e indígenas se uniam fugindo da escravidão. (continuo em outros posts)



Fontes:


Diretório dos Índios, 1755.

CASCUDO, Câmara. 1954. Dicionário do Folclore Brasileiro

Eixo Forte 30 anos, de José Geraldo.

Índios no Baixo Amazonas e Tapajós, histórias e costumes, de Sidney Augusto Canto, 2013.

Carlos Eduardo Barata, autor do Dicionário das Famílias Brasileiras.

Biblioteca Boanerges Sena (Santarém/PA)

Memórias de gravações de Dornélio da Silva, Lucilene da Silva, Laurival Miranda, Conceição da Silva, Socorro Miranda, Maria Madalena e Fernando Miranda. (2019)

A complexidade do “pardo” e o não-lugar indígena, de Anahata, 2019.

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Nessa minha busca sobre a etnicidade da família Silva resolvi fazer uma entrevista a partir de áudio. Meu pai tem uma voz muito bonita, não é à toa que ele trabalhou muito tempo como radialista em Santarém na Rádio Rural, então foi a melhor forma que percebi dele falar mais de si e de eu me reconectar com o papai. Dornelio tem 61 anos e nasceu em Cucurunã, que fica próxima à Alter-do-Chão. Perguntei para ele “Como era a casa que ele morava quando criança?”. A partir da resposta dele percebi que havia lá na comunidade um senso de coletividade, que é uma cosmovisão diferente da sociedade ocidental. A comunidade era muito unida e faziam suas casas de palha ou madeira. Como uma grande família, cada um ajudava o outro. É um modo de pensar o coletivo presente nos modos de vida dos povos indígenas. É um morar pensado e construído de forma totalmente horizontal, onde as pessoas conseguem se relacionar melhor do que o modo de morar em prédios nas grandes cidades. A resposta do meu pai foi essa “A casa na época não existia esse negócio de aluguel não. Nós tínhamos um terreno, como até hoje temos um terreno grande lá de 9 hectares. Continua lá no Cucurunã, é um pouco afastado da vila. A casa lá era feita pelo próprio papai e mais todos os meus tios que faziam a casa na época chamada de multirão, se juntavam as famílias para fazer a casa do vizinho, de alguém que pudesse ter essa ajuda. Então era assim, não existia como hoje para fazer uma coisa tem que pagar para alguém fazer, o carpinteiro, o pedreiro, etc, não. Era casa coberta de palha, tirava do meio da mata lá. A madeira toda era tirada de lá, era de barro né…fazia as paredes de barro, ou então fazia as paredes de palha mesmo, tecia as palhas e fazia as paredes ou então de madeira, de tábua..então era assim, a casa era da nossa própria família e era feita em mutirão.” Na foto papai e seus irmãos: Djalma, Conceição, Dornélio, Donaldo e Dalva.


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